Monólogo com Nicole Cordery, Alice, Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo estreia dia 8 de agosto no SESC Consolação dentro do Projeto Escritoras na Boca de Cena

Crédito: João Caldas
Crédito: João Caldas

Matéria: Divulgação

O monólogo “Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo” põe em cena a companheira de Gertrude Stein, Alice B. Toklas. Autora de um famoso livro de receitas, Alice foi também personagem de uma Autobiografia escrita por outra pessoa: Gertrude Stein. Os múltiplos fragmentos que compõem a vida dessa mulher singular são vividos em presente contínuo pela atriz Nicole Cordery.

Com direção de Malú Bazán, o solo é um espetáculo inédito sobre a figura de Alice B. Toklas. Com uma dramaturgia fragmentada e dissonante, tal qual a literatura de Gertrude Stein, a peça lança um olhar em perspectiva para a relação entre as duas mulheres na Paris dos anos 20

A dramaturgia de Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo assinada por Marina Corazza partiu de duas importantes referências: The Alice B. Toklas Cookbook, escrito por Alice e A autobiografia de Alice B. Toklas, escrita por Gertrude Stein.

No primeiro, Alice, companheira de Gertrude Stein, já doente, descreve as receitas servidas em um dos endereços mais badalados da Paris dos anos 20 onde viveu com Stein, o 27 Rue de Fleurus. Em meio às receitas, de forma absolutamente prosaica e autêntica, Alice revela fatos e anedotas de sua vida ao lado de Stein e sobre a efervescência cultural da qual faziam parte.

Já o segundo, se tornou o livro mais conhecido de Gertrude no qual escreve a “autobiografia” de sua companheira. Ao assumir a voz de Alice, Gertrude conquista a popularidade literária que tanto almejava de forma a ampliar o alcance de suas pesquisas literárias na direção de uma estética cubista na literatura. Mas e a própria Alice: quem era? O que vivia? O que dizia e como dizia?

Depois da morte de sua companheira, Alice viveu ainda mais 20 anos nos quais se ocupou em preservar e divulgar a obra de Stein.

A peça discute as fronteiras entre realidade e ficção, entre as histórias e suas dissonantes interpretações. Nela, Alice passeia por diferentes tempos e espaços, numa espécie de mosaico. Escolher a personagem real, ao mesmo tempo fictícia, de Alice B. Toklas potencializa múltiplas miradas sobre a relação de amor entre essas duas mulheres e sobre como influenciaram e foram influenciadas pela efervescente Paris dos anos 20 e 30.

Desde o início do trabalho, criar um jogo de espelhos, que embaralha a noção do eu e do outro, que confunde as fronteiras entre a ficção e o real foi um dos objetivos do projeto. A perseguição foi por uma dramaturgia que ousasse friccionar as pesquisas estéticas de Stein, as memórias de Alice, e também a posição de quem olha com certo distanciamento histórico, se reconhecendo e se estranhando com essas duas mulheres.

Para compor esse caleidoscópio Nicole Cordery, Malú Bazán e Marina Corazza contaram com o grande apoio do dramaturgo, professor e pesquisador americano Leon Katz. Em 1952, Katz foi premiado com uma bolsa da Fundação Ford que lhe possibilitou passar um ano com Alice, entrevistando-a a partir de anotações nunca publicadas de Stein que na eminência da II Guerra foram enviadas às pressas para a Yale Library nos Estados Unidos. “Estimulado com o fato de procurarmos por materiais sobre Alice Toklas, Katz nos enviou não só seu relato sobre o ano que passou como Alice, como uma primeira versão de seu monólogo “Nurturing Alice”, nos autorizando a fazer uso desses materiais para a composição da peça”, conta a atriz Nicole Cordery.

Além das obras já citadas e do material cedido por Leon Katz, foram consultados também trechos dos livros: Paris, França,Lifting Belly, Q.E.D., Melanctha, Ada, entre outras obras de Gertrude Stein, e Staying on Alone (lettresof Alice B. Toklas) e What is Remembered, ambos de Alice B. Toklas.

Assim, a dramaturgia de Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo é composta pelo choque desses inúmeros materiais que se tencionam, ora simétrica, ora assimetricamente e criam novas materialidades que se revelam a partir de seus interstícios.

Um pouco sobre a época

Paris, 1907. Gertrude Stein cuidava da impressão de Três Vidas, do qual fez uma edição particular, e estava mergulhada emThe Making of Americans, seu livro de mil páginas. Picasso tinha acabado o retrato dela de que ninguém gostava, a não ser o retratista e a retratada, e começara um estranho quadro complicado de três mulheres.

É nesse período conhecido como “idade heroica” do cubismo que a casa da escritora norte-americana, 27 Rue de Fleurus, florescia como endereço de encontro e de debate entre pintores, escritores e críticos. A cada sábado, ela os recebia com a mesa posta em uma época em que a comida era escassa. Bastava ao recém-chegado responder uma espécie de pergunta ritual: “quem te enviou”? para ter acesso à casa, suas conversas e as longas tardes que se desenrolavam no ateliê anexo.

Gertrude Stein era a figura de visibilidade do casal:  sua casa era uma exposição constante dos pintores nos quais apostava. Sua literatura trazia padrões estéticos completamente novos e, ainda hoje, provocadores.

Enquanto isso, Alice Toklas era uma anfitriã impecável. Além de amante e companheira, era a grande cozinheira da casa, primeira leitora, secretária atenta, revisora, editora, crítica e organizadora geral da obra de Stein.

Nas paredes, quadros de Gauguin, Braque, Matisse, Greco, Valloton, Cézanne. Como na época a maior parte deles não valia grande coisa, a porta do ateliê se abria com uma grande chave única.  Alice fazia peixes, ovos e jardins.

Sobre a diretora

Malú Bazán é atriz e diretora. Integrante do Grupo TAPA desde 2000, atua, dirige, ministra grupos de estudos e desenvolve uma pesquisa corporal friccionando artes plásticas, música e teatro. Dirigiu em 2012 o espetáculo “A Noite das Tríbades”, de Per Olov Enquist, criado para a Mostra Strindberg do Sesc SP. A peça foi indicada ao prêmio Arte Qualidade Brasil 2013 nas categorias Melhor Direção, Melhor Espetáculo de Drama e Melhor Ator – Norival Rizzo. Desde maio de 2014 vive em Recife, cidade que escolheu para um intercâmbio artístico cultural e onde atua como professora e diretora da próxima montagem do CIT (Centro de Interpretação Teatral) do Sesc Santo Amaro. Malú foi provocadora do monólogo “As Ondas ou Uma Autópsia” de Gabriel Miziara.

Sobre a atriz

Nicole Cordery

Foi indicada em 2015 aos prêmios APCA de Melhor Atriz por “Dissecar uma Nevasca”e foi finalista do Prêmio Aplauso Brasil, categoria Melhor Atriz por “Ato a Quatro”.  Integrou por seis anos o Grupo TAPA (SP), onde atuou nas montagens de “O Tambor e o Anjo”, “A Almanjarra”, “A Casa de Orates”, “Executivos” e “Camaradagem”, esta última eleita o Melhor Espetáculo de 2006 pelo APCA SP. Vivendo em Paris (2006 – 2010), cursou a Ecole International Jacques Lecoq, fez mestrado sobre August Strindberg na Sorbonne Nouvelle e formação de ator para cinema no Acteur Studio. Produziu e atuou no espetáculo “Strindbergman”, que trouxe ao Ano da França no Brasil e cumpriu dois meses de temporada em São Paulo (2009) e no Rio (2010). Nos últimos anos, atuou no monólogo “Lorelay” com direção de Bruno Perillo, em “Duplo Crimp” (A Cidade), com direção de Felipe Vidal, em “A Noite das Tríbades”, direção Malú Bazán e novamente em “Strindbergman”. Produziu com o Sesc SP a Mostra Strindberg. Em 2015 esteve em cartaz na peça sueco-brasileira “Dissecar uma Nevasca”, (Sesc Belenzinho e Oficina Cultural Oswald de Andrade) direção da sueca Bim de Verdier e em “Ato a 4” (Sesc Pinheiros e Viga Espaço Cênico), direção de Bruno Perillo. Em 2016 esteve com cartaz com o espetáculo “No Coração das Máquinas”, direção de Rita Carelli.

Sobra a dramaturga

Marina Corazza dramaturga do espetáculo “Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo” e atriz. Integrou a Companhia Auto-Retrato tendo participado da criação e atuação das peças “Origem Destino”, “O ruído branco da palavra noite”, “Seis da Tarde” e “Retornarse”. Com “O ruído” participou do Festival de Teatro de Curitiba e do Porto Alegre em Cena. Em 2012, desenvolveu junto da Auto-Retrato a peça itinerante “Origem Destino”, que convidava o público a percorrer da Catedral da Sé ao Terminal Santo Amaro, ecoando camadas de histórias da cidade de São Paulo e seus rios. A peça foi contemplada pela lei de Fomento ao Teatro, pelo Prêmio Funarte Artes na Rua e foi indicada ao Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro na categoria “Trabalho apresentado em rua”. Como integrante da Auto-Retrato, criou diversos fragmentos de textos para integrar a dramaturgia dos espetáculos. Foi dessa prática, entre a escrita e a cena, que surgiu o interesse de se aprofundar também no campo da criação literária. Em 2013 recebeu o convite de Malú Bazán e de Nicole Cordery para pensar a dramaturgia da pesquisa que haviam iniciado sobre Alice Toklas e Gertrude Stein. O desafio deu origem à peça “Alice, retrato de mulher que cozinha ao fundo”. É formada em Artes Cênicas pela ECA/USP e tem atuado como professora de teatro e mediadora cultural em diversas instituições públicas e privadas. Atualmente é artista articuladora do Programa Vocacional da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo e educadora do projeto Chá de Arte do Instituto Equipe.

Ficha técnica:
Dramaturgia: Marina Corazza
Direção: Malú Bazán
Atriz: Nicole Cordery
Cenários e figurinos: Anne Cerutti
Iluminação: Nelson Ferreira
Trilha sonora: Rui Barossi e Pedro Canales
Apoio vocal: Lucia Gayotto
Produção executiva: Larissa Barbosa
Direção de produção: André Canto

Serviço
Alice, Retrato de Mulher que Cozinha ao Fundo (de 08 de agosto até 30 de agosto)
Duração:
60 minutos
Ingressos:
– R$ 20,00 (inteira)
– R$ 10,00 (meia-entrada: estudante, servidor de escola pública, +60 anos, aposentado e pessoa com deficiência)
– R$ 6,00 (credencial plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes)
Quando: segundas e terças (20h)
Local: Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque)
Censura: 14 anos

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