Sesc Pompeia realiza experimento cênico na terceira edição de Cinema Falado com direção de Dagoberto Feliz

Foto: Acervo Cinemateca Brasileira

Projeto traz experimento cênico do filme mudo Fragmentos da Vida sob direção de Dagoberto Feliz, participação de atores surdos e tradução em Libras.

Workshop conduzido por DJ Dolores acontece nos dias 23 e 24 de março.

Matéria e foto: Divulgação

O Cinema Falado, projeto idealizado pelo Sesc Pompeia, propõe uma investigação sobre o uso da fala no cinema, enquanto discurso fílmico.

O experimento cênico desta terceira edição acontece nos dias 17, 18 e 19 de março (de sexta a domingo), com direção de Dagoberto Feliz, a partir de Fragmentos da Vida, filme mudo realizado, em 1929, por José Medina, pioneiro do cinema brasileiro. A película conta a história de dois vagabundos que vivem de pequenos golpes nas ruas da São Paulo dos anos 20.

O argumento provocativo para a criação do espetáculo foi a investigação do som – para um filme originalmente sem uso da palavra falada, que foi realizado há 88 anos.

A encenação de Cinema Falado – Fragmentos da Vida tem participação dos atores Eucir de Souza, Gabriel Godoy, Rimar Segala (ator e clown, surdo) e Marcellus Beghelle; dos cantores Beto Sargentelli e Juliana Peppi; do diretor musical e pianista Martin Eikemeier; e do sonoplasta Renato Navarro. As sessões têm tradução simultânea para a Linguagem Brasileira de Sinais – LIBRAS, pela atriz surda Sueli Ramalho.

O diretor explora de forma lúdica e bem humorada essa proposta de apresentar o cinema com provocação teatral a partir da fala; neste caso, a ausência dela. Numa espécie de jogo cênico, os atores dizem o texto que é exibido nos letreiros, e um deles – surdo – interpreta as mesmas cenas em LIBRAS. Cantores, piano ao vivo e sonoplastias incorporam-se às cenas, revivendo a sonorização características das projeções de cinema mudo do começo do século XX.

Crédito: Rafael Sampaio

Dagoberto Feliz explica que a escolha do filme Fragmentos da Vida se deu não somente por razões históricas. “Existia um tema, o som; também uma sequência de temas do projeto, interpretação e roteiro; e uma provocação: fazer o som ao vivo. Porém, ‘escutando’, esse verbo pode ser utilizado de várias maneiras; e ‘re/escutando’ os tempos bicudos nos quais vivemos surgem outros temas que o filme também ‘escuta’, lá em 1929. Entre eles, dois nos interessaram: a desigualdade (explícita) e a inadequação (do indivíduo inapto). O homem totalmente inserido é o que se deseja; o homem amansado, aquele que cumpre rigorosamente com suas obrigações. Essa busca era, e continua sendo, cruel até hoje. E cruel é o tratamento dado ao que é diferente de nós”. A partir desta reflexão, o diretor encontrou na “arte da inclusão” o caminho para o experimento cênico: usar atores surdos e atores que ouvem em um mesmo jogo de cena, palavras, música e sinais.

O Cinema Falado é um convite à reflexão sobre a fala no cinema, desde a escrita do roteiro, passando pelas escolhas da direção, culminando no trabalho do ator e incluindo até mesmo os desdobramentos políticos da fala enquanto construção narrativa e representação do outro. Em sua terceira edição, o projeto consolida-se como uma realização de artes integradas, na qual estéticas como as do teatro e da música somam-se à arte cinematográfica por múltiplos vieses e diferentes olhares artísticos. A sequência de temas/provocações foi: interpretação, com direção de Luiz Fernando Marques, e roteiro com direção de Caetano Gotardo e Marco Dutra, ambos em 2016; em 2017, o som, com direção de Dagoberto feliz.

Fragmentos da Vida (o filme)
Dir. José Medina. 1929. Brasil. 40”.

Fragmentos da Vida (1929), de José Medina (1894-1980), é uma livre adaptação do conto do norte-americano O. Henry (1862-1910) sobre a história de dois vagabundos – interpretados por Carlos Ferreira e Alfredo Roussy – que vivem de pequenos golpes na cidade de São Paulo. Na infância, um deles presencia a morte do pai, um operário da construção civil que cai de um andaime. Antes de morrer, o pai lhe aconselha sobre honradez e trabalho como únicos valores do homem, mas o garoto cresce se torna um malandro das ruas, que procura ser preso pela polícia para ter abrigo e comida durante o inverno. Junto com o amigo, ele planeja uma série de golpes, sempre deixando clara a sua culpa e autoria, mas acaba sempre saindo ileso e sem culpa das situações. Ele se farta em um restaurante e diz que não tem como pagar a conta, mas um homem paga pela refeição e impede que chamem a polícia. O vagabundo quebra uma vitrine e confessa o ato, mas o dono da loja duvida de sua franqueza. Ele também assedia uma moça que passa pela calçada, segurando seu braço e, surpreendentemente, ela corresponde explicando que dois sujeitos a estavam seguindo. O vagabundo, sempre acompanhado de seu amigo, fica desolado, entra em uma igreja e houve o sermão do padre que lembra o conselho de seu pai. Tocado, revê sua vida inútil e decide trabalhar pelo seu sustento. No momento seguinte é detido pela polícia por um crime que não cometera. O intertítulo comunica seu suicídio.

O longa foi realizado com baixo orçamento e em poucos dias. Apenas duas sequências foram filmadas em estúdio. Com domínio da linguagem clássica, Fragmentos da Vida transita entre comédia e drama, cuja atuação sóbria do protagonista (Carlos Ferreira) foi destaque no cinema brasileiro da época, marcado por gestos largos e muita maquiagem. Já Alfredo Roussy dá um tom mais realista ao filme, explorando o sarcasmo que contrasta com as legendas solenes. O filme era exibido com sonorização gravada em disco, ficando em cartaz no cine Odeon, que indicava êxito na época. Desapareceu logo depois, sendo encontrada uma cópia, em 1954, em Minas Gerais. Foi exibido na 2ª Retrospectiva do Cinema Brasileiro e restaurado pela Cinemateca Brasileira, no início dos anos 90.

José Medina (diretor/filme)

Ator, estudioso de fotografia e cineasta, José Medina (1894-1980) nasceu em Soracaba (SP) e veio para a capital em 1912. Percussor do cinema brasileiro, ele realizou seu último filme – O Canto da Raça – em 1943, que foi barrado pela censura na época. Alguns anos antes, um incêndio no laboratório que dividia com o diretor de fotografia Gilberto Rossi destruiu parte de sua obra, outras películas foram perdidas em incidentes de projeção. Os filmes que sobraram foram Exemplo Regenerador (1919), sua primeira realização, e Fragmentos da Vida (1929), a última. Medina foi um cineasta ativo produzindo oito filmes, todos mudos. Em 1943, longe do cinema há 14 anos, tentou retornar com O Canto da Raça, mas fracassou com o ato de censura. Seus filmes fizeram sucesso nas salas de exibição e eram lucrativos. Segundo consta, os filmes eram financiados, em grande parte, com recursos próprios.  Medina deixa claro em suas obras o talento para captar de forma fiel e eficaz os hábitos e costumes da época. Os dois filmes abordam conceitos morais que podemos observar, ainda hoje, no imaginário de muitas pessoas e suas condutas, bem como nos dilemas dessa conduta moral. O primeiro tem a elite como mote e o segundo fala de um desajustado. De forma geral, os dois filmes querem avisar às pessoas que tenham cuidado com o desvio de sua conduta e de seus objetivos, sempre usando a relação vagabundo/emprego e família/emprego para dar o seu recado e fazer retratar popular da moralidade e do padrão de vida do Brasil na época.

Dagoberto Feliz (diretor/experimento cênico)

É membro do Grupo Teatral FOLIAS, desde sua fundação até hoje. Graduado em Direito pela UNISANTOS, possui cursos de Pós-graduação junto à ECA-USP na área teatral e Curso de Aperfeiçoamento para Professores – Lato Sensu – SP. Também músico de formação, pelo curso técnico de piano QP-4. Atuou como regente e coralista de vários núcleos corais da cidade de Santos e de São Paulo.  Junto ao Folias participou como diretor, ator ou diretor musical de vários espetáculos: Chiquita Bacana no Reino das Bananas, Folias d’Arc, Folias Galileu, A Saga Musical de Cecília Santa, A Dócil, Medéia – a Mulher-Fera, Cabaré da Santa, Orestéia, El Día Que me Quieras, Otelo, Babilônia e Happy End. Com outros núcleos teatrais: Roque Santeiro, Rainhas do Orinoco, Peer Gynt,Godspell, A Tempestade, Cabaré Falocrático, Hamlet ao Molho Picante, Single Singers Bar,Le Devin Du Village, The Pillowman, Processo de Giordano Bruno, Logun-Edé, Noite na Taverna, Casting, Cabaré das Utopias e muitos outros. É Palhaço ligado aos Doutores da Alegria como orientador de formação.

Serviço:

Experimento cênico: Cinema Falado – Fragmentos da Vida
As sessões possuem tradução simultânea para a linguagem brasileira de sinais – LIBRAS.

Ficha técnica:
Direção do experimento cênico: Dagoberto Feliz
Direção do filme: José Medina
Elenco: Beto Sargentelli, Eucir de Souza, Gabriel Godoy, Juliana Peppi, Marcellus Beghelle, Rimar Segala e Sueli Ramalho
Direção de som e música: Martin Eikemeier
Sonoplastia: Renato Navarro
Luz: Tulio Pezzoni
Direção de arte e figurino: Juliana Lobo
Produção: Lara Lima | Lira Cinematográfica

De 17 a 19 de março. Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.
Local: Teatro (300 lugares)
Ingressos: R$ 9,00 (credencial plena), R$ 15,00 (meia entrada) e R$ 30,00 (inteira).
Não recomendado para menores de 14 anos. Duração: 60 min.

Workshop: Escutando Filmes
Com DJ Dolores
DJ Dolores, experiente compositor de música para cinema, conversa com o público sobre filmes e trilhas sonoras. O encontro é dividido em duas partes. Num primeiro momento, o autor discute o conceito de música cinematográfica, apresenta trechos de filmes que o influenciaram, destaca soluções criativas na combinação entre imagem e som e analisa aspectos técnicos e artísticos das obras exibidas. A segunda etapa, focada no trabalho do próprio artista, aborda a sua metodologia de criação, analisando especificamente algumas de suas obras, a relação compositor/diretor/roteirista e o papel da música na narrativa cinematográfica.

Dias 23 e 24 de março, quinta e sexta, das 19h às 22h.
Local: Sala 1 das Oficinas de Criatividade
Inscrições abertas na Central de Atendimento. Nº de vagas: 20.
Preços: R$ 7,50 (credencial plena), R$ 12,50 (meia entrada) e R$ 25,00 (inteira).

Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93, Pompéia)
Não possui estacionamento

 

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